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quarta-feira, 27 de maio de 2026
“Não podemos deixar que a IA ganhe autonomia moral”, diz o teólogo Jorge Cunha
O sacerdote português alerta para a necessidade de “uma mobilização para dizer que a ação humana é avaliada pelo seu sujeito”. “O ser humano é o sujeito e, portanto, não pode deixar que a inteligência artificial crie formas sofisticadas de manipulação”, afirma.
Rui Saraiva – Portugal
“Magnifica Humanitas”, “Magnífica Humanidade”, é a primeira encíclica do Papa Leão XIV. Um documento sobre a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial (IA).
Assinada a 15 de maio, na data dos 135 anos da encíclica “Rerum Novarum” de Leão XIII, a apresentação do texto do Papa Leão XIV teve lugar na manhã de 25 de maio.
Desarmar a IA
A sessão contou com uma intervenção no final do próprio Santo Padre, na qual apelou a uma mobilização global para travar o potencial destrutivo da IA, defendendo um escrutínio moral rigoroso sobre os avanços tecnológicos.
“A inteligência artificial exige agora ser desarmada, libertada das lógicas que a transformam num instrumento de dominação, exclusão e morte”, declarou Leão XIV.
O Papa comparou a ameaça algorítmica aos perigos do armamento nuclear
“A Igreja trabalha há muito tempo para o desarmamento nuclear, consciente de que todo o grande poder tecnológico pode afetar a vida das pessoas e, por isso, deve ser acompanhado de um discernimento moral adequado e de um controlo público”, afirmou o Papa.
Leão XIV revelou que este documento está fundamentado numa profunda escuta de peritos, de agentes políticos e de vítimas de sistemas informáticos enviesados.
“Ouvi relatos muito preocupantes de algoritmos que podem bloquear o acesso à saúde, ao emprego e à segurança com base em dados contaminados por preconceito e injustiça”, assinalou Leão XIV.
O Papa destacou que “não devemos temer a inteligência artificial”, mas não esquecer a “questão do ser humano”. Porque “a pessoa transporta em si uma liberdade, uma interioridade e a vocação para amar e adorar que nenhuma máquina pode substituir ou bloquear”, declarou o Santo Padre.
Advertir a humanidade sobre os riscos da IA
Pedimos ao teólogo português Jorge Cunha um primeiro comentário ao texto agora publicado. O docente da Universidade Católica Portuguesa considera que o Papa se coloca na perspetiva da encíclica “Rerum Novarum” de Leão XIII. Salienta a coragem do Papa Leão XIV ao “advertir a humanidade sobre os riscos do mundo novo que nós estamos a construir”.
“Ele pretende colocar-se na perspetiva da “Rerum Novarum”. E, portanto, ele aqui também se coloca na mesma perspetiva pastoral, digamos, da parte da Igreja de prevenir, de advertir, de corrigir aquilo que as coisas novas indiciam como perigos para o nosso mundo, como caminhos que levam a desconsiderar a magnífica humanidade que Deus nos deu. E, portanto, é essa a preocupação dele, se bem percebi, não é? E, de qualquer maneira, revela muita coragem, revela muita coragem para denunciar, sobretudo os aspetos da questão da guerra, que tem uma grande importância. Não era de esperar que a questão da guerra tivesse uma grande importância, não é necessariamente o tema geral da encíclica, mas tem. A questão da guerra, a questão do trabalho, a questão da economia, a questão da desigualdade. Portanto, ele mostra-se muito corajoso a advertir a humanidade sobre os riscos do mundo novo que nós estamos a construir”, afirma o teólogo.
O teólogo assinala a importância do multilateralismo na resolução de conflitos e sublinha os “povos como sujeitos da paz”, declarando que “não podemos confiar a guerra à inteligência artificial”.
“Nós não podemos confiar a guerra à inteligência artificial e depois desculpar-nos dizendo que a inteligência artificial se enganou, não podemos, não podemos. Nós não podemos nunca desculpar os subsídios que encontramos para a nossa atividade, mesmo para fazer a guerra. Não podemos passar adiante do princípio da responsabilidade e da imputabilidade, ele diz isso muito claramente. Alguém tem de responder pelo mal que se faz, mesmo no contexto bélico, pela autonomia ou pela capacidade de ação, independentemente de nós, das armas novas criadas pela inteligência artificial.
E o beligerante, se cometeu um erro, tem de o admitir e pedir desculpa e restituir o mal que fez de maneira nenhuma. E portanto, desculpar-se, dizer que o drone enganou-se, por favor, nós temos de conduzir o drone, ir responder pelo drone e aceitar as culpas que o drone fez. E portanto, a exigência do multilateralismo, voltar ao multilateralismo e ao multilateralismo ascendente, portanto, de inventar um ponto de partida dos povos como sujeitos da paz e não propriamente só os governantes, isso está lá muito bem dito e até a condenação do esquema da guerra justa, mais uma vez, vem.
Eu até esperava que ele não tivesse dito que a guerra defensiva é diferente, mas de facto é um problema insolúvel. Nós temos de nos conformar com o realismo de que a humanidade é conflitual, de que a humanidade é agressiva e, portanto, temos de conter a fúria agressiva que muitas vezes nos surpreende”, assinala o sacerdote.
Mobilização pela ação humana no mundo
O padre Jorge Cunha considera que a Igreja é um importante “player” mundial no sentido de uma mobilização para não deixar que a IA “crie formas sofisticadas de manipulação”. Porque “não podemos deixar que a IA ganhe autonomia moral”.
“Sim, eu acho que isso é a nossa missão, nós temos uma grande capacidade disso, ele insiste várias vezes nisso, na responsabilidade, nós não podemos deixar que a inteligência artificial ganhe autonomia no sentido da autonomia moral, de maneira nenhuma. A inteligência artificial é um utensílio, é uma ferramenta que tem muitas virtualidades, mas sobretudo quando existe a tendência para a inteligência artificial começar a agir com autonomia, de certo modo, e a relacionar dados até com mais velocidade do que nós, e dados que eventualmente podem levar a conclusões que induzem erro, aí nós temos de estar muito atentos.
Portanto, aí precisamos de uma mobilização para dizer que a ação humana é avaliada pelo seu sujeito. E portanto, nós não podemos deixar de manter-nos como sujeito de todas as ações que acontecem no mundo. O ser humano é o sujeito e, portanto, não pode deixar que a inteligência artificial crie novas situações, crie formas sofisticadas de manipulação.
Portanto, diante disso, nós temos de estar muito atentos, a Igreja é um player de primeira ordem nisso, porque a sua teologia moral foi sempre um robustecimento da vontade humana, da inteligência humana, para poder comandar o processo e para poder fazer crescer a humanidade em responsabilidade. Isso aí está muito bem dito em vários sítios da encíclica”, diz o padre Jorge Cunha.
Igreja deseja, “com humildade e franqueza”, participar no diálogo sobre IA
O Papa revelou na sua intervenção no final da apresentação da encíclica, que a Igreja deseja, “com humildade e franqueza”, participar no diálogo sobre IA.
“Contribuímos com uma sabedoria sobre o humano que o nosso tempo necessita desesperadamente: cada pessoa é única e insubstituível, um sujeito livre e inteligente, dotado de consciência, capaz de buscar a Deus, servir os outros e cuidar da nossa casa comum”, declarou o Papa.
E a própria apresentação da encíclica foi já um momento de procura de diálogo. Nela participaram vários especialistas que fizeram uma primeira leitura do documento. Foram eles Anna Rowlands, teóloga e professora da Durham University, no Reino Unido; Christopher Olah, cofundador da Anthropic (EUA) e responsável pela pesquisa sobre a interpretabilidade da inteligência artificial e Leocadie Lushombo i.t., docente de teologia política e pensamento social católico na Jesuit School of Theology de Santa Clara, Califórnia.
A apresentação que teve lugar na Sala Nova do Sínodo, no Vaticano foi moderada pelo cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, e teve as intervenções dos cardeais Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé e Michael Czerny, S.J., prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
Laudetur Iesus Christus
Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-05/papa-leao-magnifica-humanitas-ia-dignidade-pessoa-humana.html
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